Rota Zé Maria do Tomé percorreu trilha do veneno na Chapada do Apodi

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A rota Zé Maria do Tomé percorreu as cidades de Limoeiro do Norte e Quixeré, na Chapada do Apodi, no estado do Ceará, para que os participantes tomassem conhecimento do impacto nocivo que o agronegócio traz para toda a região, e que não é pequeno. Esse lado da Chapada tem o reflexo da política de açudagem do governo federal, implantada no início do século XX e que chegou na Chapada do Apodi no final dos anos 80, desapropriando diversas famílias. A rota saiu do Centro de Limoeiro do Norte e percorreu os dois municípios. Dela participaram integrantes de organizações locais, estudantes da Universidade Federal do Ceará (UFC) e pesquisadores do Brasil e de outros países da América Latina, que estavam reunidos do I Encontro Internacional de Ecologia de Saberes: Construindo Sobre Impactos dos Agrotóxicos na América Latina, com o objetivo claro contra os agrotóxicos.

A primeira visita da rota aconteceu em uma pequena empresa de Quixeré que prepara o plástico utilizado, em geral, nas plantações de melão e melancia da região para a reciclagem e a transformação em sacos de lixo. Esses plásticos, na produção das frutas, cobrem a terra e tem contato direto com agrotóxicos, que são utilizados para combater as pragas nas plantações, cultivadas por empresas multinacionais e nacionais de fruticultura instaladas em toda a região. Dessa fábrica, o material segue para reciclagem em outra fábrica. E assim, eles se transformam nos sacos de lixo que utilizamos e manipulamos no dia a dia em nossas casas.

Mardem Dias, dono da pequena fábrica, conta que hoje tem 22 funcionários, devidamente empregados com carteira assinada, no valor de um salário mínimo. César Ribeiro, um de seus funcionários, conta satisfeito que consegue fazer por mês até R$ 1.200,00 líquidos, já que o ganho é por produção. “Se eles fizerem menos de um salário mínimo por mês em produção, pagamos o que está na carteira”, conta Mardem, afirmando que os funcionários sempre ultrapassam o valor do salário taxado na carteira de trabalho. No entanto, a partir das perguntas feitas pelos participantes das rotas, fica nítido que os trabalhadores não tem plano de saúde, nem acompanhamento de algum órgão de saúde. Eles têm contato direto com o plástico, que recebe purgicida e inseticida, em todas as etapas do trabalho.

O plástico é comprado à R$ 0,15 o quilo as 10 empresas presentes na região. E 90% é fornecido apenas pela Agrícola, um dos maiores empreendimentos do ramo. “No começo eles me davam o plástico, mas como a concorrência ficou grande porque outras empresas como a minha surgiram, eles passaram a vender o plástico”, conta.

O plástico usado na produção de melão sai das fazendas de fruticultura e segue direto para a pequena empresa. Lá, os trabalhadores tiram ele de cima dos caminhões e logo em seguida utilizam uma máquina para picotá-lo. Esse trabalho é realizado apenas com uma máscara simples e luvas de tecido. Depois, ele segue para a lavagem e em seguida é levado para a prensa que forma os fardos. Os trabalhadores levam o plástico já picotado e encharcado para a máquina de prensa e nesse movimento levam banhos de água contaminada, já que só a lavagem não é possível de retirar o veneno. A água da lavagem ainda é reutilizada para dar de beber aos cavalos e irrigar a produção de capim de seu Mardem.

Questionados sobre os riscos que correm ao manusear o plástico ainda contaminado, os funcionários dizem acreditar que não existe mal. Não sabemos se por convicção ou por constrangimento de serem questionados em frente ao patrão. Dos 22 funcionários, duas são mulheres. No entanto, no começo do empreendimento o número de mulheres era quase o total. Hoje, por conta da instalação das empresas de fruticultura na região, quase todos os empregados da fábrica vem de cidades vizinhas a Quixeré. Pois os trabalhadores locais estão, em sua maioria, contratados pela fruticultura.

Quem participava da rota ficou bastante perplexo com o processo de reciclagem do plástico, pelas condições de trabalho e por constatar que o veneno dos agrotóxicos está presente em várias situações de nossas vidas. Nesse processo, da fruta que comemos ao saco de lixo que jogamos nossos resíduos. Além dos efeitos que pode causar esse tipo de trabalho, que manuseia materiais contaminados. Situação não distinta de outros países do continente latino americano, como conta a chilena Alice Muñons, da Associação Nacional de Mulheres Indígenas. “No Chile também sentimos o impacto dos agrotóxicos, principalmente das mulheres que trabalham nas lavouras. Muitas chegam aos 50 anos sem força de trabalho. Mesmo sendo mulheres ainda jovens, muitas vezes não conseguem nem levantar seus braços por conta dos efeitos do veneno”, conta.

Caminho das águas privadas e contaminadas

A segunda visita do primeiro dia da rota Zé Maria do Tomé percorreu o caminho das águas que irrigam o Perímetro Irrigado Jaguaribe-Apodi, que está localizado na Chapada do Apodi, no Ceará. Sua implantação teve início no ano de 1987 pelo DNOCS e faz parte da política de açudagem do governo federal, que desde o início do século XX começou a construção de diversos açudes pelo Nordeste, mas em propriedades privadas ou em áreas que foram apropriadas pelas oligarquias da região. Ou seja, a água que é um bem público servia apenas a interesses privados de poucas famílias.

Nessa mesma lógica foi implementado o perímetro de Jaguaribe-Apodi, onde o DNOCS desapropriou diversas famílias da região para dar lugar ao projeto de produção de frutas de forma irrigada e contaminadas pelo intenso uso de agrotóxico. Para dar vasão ao projeto, foi construído um grande canal que leva água do Rio Jaguaribe para irrigação. Foi parte desse caminho que percorremos na rota Zé Maria, com um canal que garante água para os grandes produtores. A água contaminada é a mesma que leva água para as casas da população de Limoeiro do Norte. Sem outra opção de acesso à água, a população usa a água para consumo humano. Alguns moradores, que tem condições, compram água mineral para poder utilizar.  Além desse risco de contaminação pelas águas, os trabalhadores das empresas de fruticultura também têm sofrido com o manuseio de agrotóxicos nas lavouras. “Antes da implementação desse projeto já havia muita vida aqui. Mas o Estado desapropriou as famílias para implementar um sistema de irrigação que desmatou e que contamina as pessoas. Até hoje tem famílias que não receberam indenizações”, afirma Diego Gadelha, professor do IFET e integrante da Cáritas Diocesana de Limoeiro do Norte.

Zé Maria do Tomé

O nome que batizou a rota é o do ativista da região do Vale do Jaguaribe, assassinado com 25 tiros em 21 de abril de 2013, José Maria Filho, pelo agronegócio, como afirmam seus companheiros. Defendia o fim da pulverização aérea na Chapada do Apodi e denunciava a contaminação das águas pelo veneno utilizado nas plantações de fruticultura irrigada. Além de lutar pela reapropriação dos agricultores nas terras entregues ao agronegócio. A rota visitou ao fim do seu primeiro dia, o memorial em Limoeiro do Norte feito em sua homenagem e pela luta dos agricultores e agricultoras familiares da região.

Na frente do memorial, foram exibidos os vídeos Sucata de Plástico, que mostra o trabalho e a situação na empresa de reciclagem do plástico contaminado usado nas plantações e o vídeo Chapada do Apodi Morte e Vida, que retrata a situação de famílias na Chapada do Apodi, do lado do Ceará, depois da implantação da fruticultura irrigada, e do lado do Rio Grande do Norte, onde cerca de 800 famílias estão ameaçadas de serem expulsas de suas terras para dar lugar a ampliação do Projeto da Morte.

Por Catarina de Angola

Foto: Ricardo Wagner

Vídeos:

Sucata de Plástico:
http://www.youtube.com/watch?v=teUY_QMuYMo

Chapada do Apodi Morte e Vida: http://www.youtube.com/watch?v=VSfe7md9gjE&feature=c4-overview&list=UULeeJY1pBgSvjVZgbfzpjoQ

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